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"eu goco eiste tum-tum gaaaaainnnde"

᠅ A vida em S. ᠅ - O quotidiano, perspectivado e registado pelo S. Cada foto remete para um momento, uma vivência, uma memória que queremos recordar, celebrar e agradecer.





Da varanda de casa vê-se uma escavadora em movimento. É a 9ª grande obra em torno da nossa casa, desde o nascimento do S.

A primeira foi dentro do prédio, nos primeiros meses de vida e implicou a reformulação total de um apartamento. A segunda e terceira foram  na rua e levaram ao duplo levantamento do passeio, com direito a martelo pneumático e tudo - primeiro a EDP, depois a EPAL. Nem pensar em conciliar as duas obras, eu tive o cuidado de perguntar...

A quarta obra voltou a ser dentro de portas, com a remodelação total de mais um apartamento. A utilização massiva de tintas, vernizes  e colas hiper-agressivos chegou a desesperar-me. Porquê não optar por materiais menos agressivos? É uma questão de preço? E o meu filho recém nascido que acordava às oito da manhã com o ar de tal forma empestado que nos fazia chorar os olhos? Qual o preço a pagar por isso?

Seguiu-se a quinta obra, a reformulação das partes comuns do prédio que fica duas portas abaixo, nunca pensei que o impacto, duas portas acima, fosse tão grande.

Mais ou menos ao mesmo tempo, porque vizinhos negligentes não fazem a manutenção dos escoamentos das águas pluviais, deu-se uma inundação que transformou o prédio num sarcófago de mofo.  O odor era pestilento e levou à sexta obra, mais uma vez, dentro de portas. Igualmente barulhenta mas, felizmente, menos química.

Para não quebrar a sequência, começou, logo de seguida, a sétima obra, reformulação integral do restaurante que fica do outro lado da rua, infelizmente, deu-se aí  um violento incêndio.

A oitava obra começou há duas semanas nas traseiras da casa e trata-se de uma intervenção  geral num dos miradouros de Lisboa. Mais uma vez, somos brindados com o som do martelo peneumático e marteladas, 7 horas por dia. Felizmente, para nós, os trabalhos nesta obra são intermitentes.

A Nona obra iniciou-se ontem e implica uma retro-escavadora a funcionar em frente à janela de casa.


Em dois anos, muitos foram os dias de calor infernal ou de chuva intensa, em que saímos de casa de emergência devido ao ruído em excesso ou aos odores intensos de tintas e vernizes.

Durante os primeiros meses de vida, sair com o S. era uma aventura pois ele mostrava-se muito sensível aos ruídos mecânicos. O som de uma ambulância, de carros a passar na rua ou até de uma máquina registadora a abrir (numa loja) eram gatilhos que o faziam explodir gritos e lágrimas. Nunca saberei se foram, ou não, efeitos da exposição continuada a marteladas, berbequins e máquinas de cortar azulejo em funcionamento das 8:00 às 13:00 e das 14:00 às 18:00, durante meses e meses a fio.

Se em relação em S. não consigo determinar os efeitos da exposição a tantos ruídos, no meu caso, posso garantir que cada martelada quase me faz sobressaltar o coração e o som continuado das máquinas me nubla os sentidos. A minha resistência ao ruído, ao pó e aos odores fortes está abaixo de 0.


Quando ontem vi a escavadora em funcionamento, tinha duas hipóteses, desesperar ou tirar partido da situação. Optei pela segunda. Não porque sou uma optimista nada e vejo o lado positivo de tudo mas porque, depois de tamanho massacre operário, não me restam alternativas. Assim sendo, montei um toldo à lá  "balcone italiano" para proteger o S. do sol e criei-lhe um camarote de luxo para ver e recriar o teatro dos "tum-tum".

Está a ser um sucesso como atesta o "mãe, eu goco tum-tum".

Espero que o meu cérebro consiga processar mais esta agressão e acompanhar a alegria do miúdo.

O nosso "balcone italiano" é mais ou menos assim (perdi os créditos da foto mas lembro-me que é de uma notícia de Jornal português):


Foi a primeira vez que quantifiquei todas as obras. Que alívio, não estou maluca, é mesmo ruído a mais para se aguentar, especialmente com um bebé em braços.  Foram tantos os dias que passamos a vaguear pela cidade para fugir a estas agressões que não admira que, passados dois anos, a criança não goste de estar fechada em casa.

1 comment:

  1. Adorei.
    Se quiseres tornar tudo mais divertido, mostra-lhe o Bob the Builder no tubi. O Gabriel ama e obras para ele é o Bob.

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