Do you speak English? | Parlais vous Français?

A menina e o mocho


Até aos dois anos e meio - altura em que fui para o colégio de freiras - estava entregue aos cuidados de uma família vizinha: Avó, mãe e 3 filhas e 1 filho, revezavam-se para "olhar pela criança" que lhes desarrumava a casa e complicava o quotidiano.

Contam elas, entre gargalhadas - as filhas que a avó já morreu e, em vida, era de poucas palavras - que eu era "imparável", "terrível", "estragava tudo em que punha a mão", "atirava-me de cabeça pala escadaria abaixo", "caia de cabeça dentro do tanque cheio de água", "tirava tudo de dentro dos armários e espalhava pela casa", "nunca dormia", "não parava quieta".

Elas, quando "tinham o que fazer" - ou seja, todo o dia - punham-me, a pé, em cima de um banco mocho e iam advertindo "não te mexas senão cais", "fica quieta ou vais para o hospital", "porta-te bem", "olha que eu digo à tua mãe que te portaste mal", "não chores, queres apanhar? Já te dou motivos para chorares" e eu, ali ficava, a chorar, chorar, chorar, até desistir e me calar.

Lembro-me de muito pouca coisa da minha infância mas, tenho muito nítida a imagem das costas da senhora, a moverem-se enquanto lavava a loiça, e do medo que tinha de cair do banco abaixo.

Muitas vezes os meus pais chegavam e levavam-me para casa, directamente do banco mocho.

Queixar-me não era uma opção. Estar em cima do banco, com medo de cair, era visto como "normal" e cresci a ouvir contar esta história como se de uma piada se tratasse. Aliás, era uma solução genial que conseguia domar a "danada da miúda".

Nenhuma das pessoas envolvidas nesta história o fazia "por mal", era ou é "má pessoa" e nenhuma delas imagina sequer as consequências que a repetição desde acto de violência teve sobre mim. Eu mesma não o sabia até muito recentemente.

Sempre que me encontro numa situação de crise, humilhação, sofrimento, perda - ou qualquer outra que espolete emoções negativas - sinto uma grande urgência em "fazer algo", "agir",  "resolver tudo" mas, invariavelmente, fico petrificada, reajo com uma enorme crise de ansiedade, perco o equilíbrio e desisto. Quando desisto, penso e verbalizo "está tudo bem, fico quieta e calada e isto passa".

Eis que, recentemente, depois de ter dito as palavras mágicas "quieta e calada que isto passa" (e começar a dizê-las já foi um passo de gigante, pois só as pensava e me atormentava com elas), senti, com muita clareza, a falta de equilíbrio, o desamparo, o medo, a impotência e fui transportada para cima do banco mocho. Foi a primeira vez que se fez uma ligação directa entre o que estou a sentir agora e o que sentia em cima dodo banco.

É verdade que as crianças "aguentam tudo", "são resistentes",  que também nós e os nossos pais "passamos por muito e estamos aqui" a questão é, como é que estamos aqui? Com que emoções reprimidas, com que memórias, com que reacções ao que nos é proporcionado no quotidiano, com que capacidade de co-criação, com que nível de reflexividade sobre nós e sobre o mundo?

Que mochos trazemos no coração e que influência "eles" tem sobre o que somos?

Imagem: http://puracal.blogspot.pt/p/reuse.html

Gratidão ♥ *•.¸Paz¸.•♥•.¸Amor¸.•♥•.¸Sabedoria¸♥ •.¸Prazer¸.•♥•.¸Alegria¸.•♥•.¸¸ Vida

No comments:

Post a Comment