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Ama-de-leite


Existem registos do recurso a amas-de-leite desde

"os povos da Babilônia (2500 AC) e do Egito (1500 AC) (que) tinham por norma amamentar as suas crianças por um período aproximado de 2 a 3 anos porém, já nessa época, havia as amas de leite. Moisés e Maomé devem as suas vidas a essas mulheres."

Entre gregos, romanos e posteriormente cristãos, também se promovia o aleitamento de recém nascidos, ao peito, por amas-de leite.

As amas-de-leite são personagens conhecidas de qualquer relato histórico que envolva senhores e escravos (ou senhoras e escravas).

Na linha de Gilberto Freyre -  Casa Grande e Senzala - a ama-de-leite é a "mãe-negra"que, para alívio das senhoras, amamentava e criava os filhos dos "donos".

Há quem coloque a tónica da relação ama/criança, na proximidade e afectividade existente entre ambos e não na dominação senhor-branco, escravo-negro, no entanto, há também quem não esqueça que, a criação de tais laços afectivos estabelecia-se com base na negação, para a escrava, do direito à maternidade e, não raras vezes, na morte dos seus filhos. A comprovar esta mercantilização dos afectos temos a venda de escravas para aleitamento.

A reflexão sobre a importância da ama-de-leite está presente na  análise do arquivo fotográfico Brasileiro do Século XIX, no qual as crianças da "Casa Grande"surgem sempre acompanhadas pelas suas "mães negras".  Também aqui há dois pontos de vista (ainda não aprofundei para saber se contraditórios ou complementares) por um lado, temos a ideia de que estas mães-de-leite eram parte integrante das famílias senhoriais, acolhidas com regalias e escravas alforriadas e por isso apareciam retratadas, por outro lado, a atribuição da sua presença na memoria familiar a questões meramente técnicas:

A negra responsável pela amamentação e pelos cuidados com a criança era sua companhia natural nessas fotos de 1870 e 1876. Estando mais habituados com elas, diminuía-se o risco de que os bebês ficassem inquietos durante a feitura do retrato. Além disso, essas fotografias, provavelmente encomendadas por famílias senhoriais, propagandeavam seu status social apresentando sua escravaria em trajes finos da moda. Muitas vezes as negras apresentavam uma estética próxima à das senhoras brancas.

Com a abolição da escravatura e a disseminação da tese que defendia serem as características pessoais e culturais transmitidas através do leite materno, a "utilização" da mulher negra como ama-de-leite passou a ser tão mal conotada como indesejada e este "cargo" foi ocupado pela imigrante branca mas a violência sujacente à pratica era a mesma, "uma mucama é posta a alugar-se pelo seu proprietário, a senhora livre se aluga ela própria"

Também na Europa urbanade 1700 - em que as relações mãe recém-nascido eram caracterizadas por um vazio afectivo  - o aleitamento mercenário era prática comum e transversal às diversas camadas sociais. Famílias abastadas recorriam a amas-de-leite internas, mulheres jovens e saudáveis que, por sua vez, mandavam os seus filhos a "criar fora" por mulheres ainda mais pobres e desnutridas do que elas.

Em Inglaterra e França do Século VIII, onde as taxas de mortalidade infantil eram muito elevadas, Candogan e Rousseau, respectivamente, fazem o elogio do leite materno como sendo a alimentação natural para crianças até ao ano.
 

“Se eu pudesse mandar, nenhuma criança deveria ser entulhada com misturas não naturais até que a Provisão da Natureza estivesse pronta para isso; nem ser alimentada com qualquer dieta engenhosa nos primeiros três meses; ela não está habilitada a digerir e assimilar outros alimentos precocemente. Tenho visto crianças finas e saudáveis, que não bebem outra coisa senão leite materno nos primeiros 10-12 meses. A natureza parece dar essa orientação ao provê-las com dentes em torno dessa idade” (Cadogan)
 A sua contribuição permitiu reduzir a taxa de mortalidade infantil no seu país.

No século XIX, a descoberta de que  leite de vaca é mais rico em proteínas do que o leite humano e a sua pasteurização aliadas à descoberta do leite em pó no século XX, vieram colmatar um vazio deixado pelas amas-de-leite, cada vez mais caras e menos "confiáveis"


Sintomático desses novos tempos de ares "civilizantes" é o anúncio de um produto considerado moderno: a farinha láctea. "A escassez da ama sadia e o seu preço elevado tem tornado a introdução da farinha láctea Nestlé um verdadeiro benefício para o Brasil. Hoje uma mãe pode ter a satisfação de criar seu filho com o leite se tiver pouco, sem risco de enfraquecer nem se sofrer na sua saúde (...)"
Pelo que percebi das leituras que fiz (e que aqui citei) o leite de fórmula não veio per si, interromper a prática de aleitamento materno mas sim a de aleitamento ao peito, fosse ele feito, ou não, pela mãe. O Seja por medo das consequências nefastas da amamentação para a mulher, pelo estatuto social ou pela necessidade de integrar o mercado de trabalho, o recurso a amas de leite foi, ao longo da história da humanidade e em várias partes do globo, muito utilizado. É este espaço que o leite de fórmula parece ter vindo ocupar e é neste campo que deveríamos tentar actuar para transmitir a mensagem da importância do aleitamento materno.

O mito das qualidades do leite de fórmula, enquanto substituto ou complemento da amamentação ao peito materno, não me parece que resida, apenas, na capacidade de persuasão dos fabricantes do primeiro mas na histórica falta de credibilidade dos benefícios do segundo.

Já agora, eu eu tivesse uma ama-de-leite não tinha demorado 8 horas a escrever este texto :)

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