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Experiência de parto: Alguns factores e consequências associadas (*)

Partos percepcionados pelas parturientes como sendo difíceis podem aumentar as dificuldades de vinculação mãe/bebé:

Lee (1995) realizou uma entrevista estruturada a uma amostra de 63 mulheres (82% caucasianas, 18% afroamericanas), primíparas (49%) e multíparas (51%), com idades entre os 20 e os 45 anos e concluiu, entre outras coisas, que:
"a maior parte das vezes a experiência de parto é, sob diversos aspectos, relatada como uma experiência difícil, sendo que quanto mais difícil é a experiência de parto pior é o ajustamento emocional da mulher no puerpério, assim como menos"

Thune-Larsen e Pedersen (1988), entrevistaram, sobre a experiência de parto, 161 mulheres norueguesas (ao 1º e 5º dias de puerpério) e concluem que existem evidências de que:

"qualidade da experiência da mulher durante o parto se relaciona com o seu estado emocional após o parto. As mães que relatam um parto mais difícil, assim como aquelas que referem mais dor, mais ansiedade, mais perda de controlo, da noção de tempo e espaço, e aquelas que exibem uma reacção emocional mais negativa para com o parto e apontam que tiveram menos suporte por parte dos técnicos, apresentam níveis mais elevados de perturbação emocional no 5.º dia do puerpério.

A importância do contacto imediato mãe/bebé:
"Na investigação de Klaus e Kennell (1976), junto das mães a quem o bebé não foi retirado e se permitiu o contacto corporal com o bebé nos momentos que se seguiram parto, verificou-se uma maior proximidade com o bebé um mês depois do parto, estratégias mais eficazes de apaziguamento do mal-estar do bebé ao ano de idade e mais estimulação verbal do bebé aos 2 anos de idade. Resultados semelhantes foram obtidos em outros estudos realizados em diversos contextos culturais (e.g., DeVries, Wellemans Camus, & Landeur- Heyrant, 1983; Windstrom, Wahlberg, Matthiesen, Eneroth, et al., 1990), designadamente no nosso país (Gomes Pedro, 1982), e mostram a importância do contacto imediato com o bebé na qualidade da interacção e dos cuidados que a mãe providencia ao bebé"
O tipo de parto interfere na experiência da mulher e, consequentemente, na percepção e satisfação com o parto, assim como no estabelecimento da ligação inicial da mãe ao bebé e nos cuidados que lhe dedica.

Marut e Mercer (1979), num estudo efectuado junto de 50 puérperas (30 parto normal e 20 cesariana), 48 horas após o parto, verificam que

"as mulheres com um parto normal percepcionam de forma muito mais positiva a experiência de parto do que as mulheres que foram sujeitas a uma cesariana, as quais, entre outros aspectos, hesitam mais e demoram mais tempo a dar um nome ao bebé, tendem a ver o seu parto como não normal e a ter um estigma social. No grupo das puérperas que fizeram uma cesariana, observam que as que tiveram anestesia local têm melhor percepção do parto do que as que foram submetidas à anestesia geral, assim como verificam que a presença de uma figura de suporte durante o parto torna mais positiva a experiência da mulher.a cesariana tem um profundo impacto adverso sobre a percepção e satisfação da mulher com o parto, o que se repercute nos sentimentos da mãe para com o bebé, sendo que a presença do pai e o sentimento de participar na decisão tomada diminuem esse impacto negativo. Consideram que a anestesia geral não permite que a mulher se certifique do que se está a passar e estabeleça de imediato uma relação com o bebé, o que interfere nos sentimentos maternos para com o bebé que são neste caso menos positivos."

Quanto às cesarianas:

"Quando a mãe e o bebé ainda se encontram no hospital e se observa a interacção entre eles, verifica-se que as mães que fizeram uma cesariana, passam menos tempo, cuidam menos, pegam menos ao colo e interagem menos com o bebé, em comparação com as mães que tiveram um parto normal. Este resultado foi encontrado nos seguintes estudos: Bradley, Ross, e Warnyca (1983), que consideram 90 mães com parto normal e 25 mães que foram alvo de uma cesariana não planeada; Tulman (1986), cuja amostra é composta por 452 mães com parto normal e 36 mães com parto por cesariana; Cummins, Scrimshaw, e Engle (1988), que investigam 36 mães que fizeram uma cesariana e um igual número de mães com parto normal. Por sua vez, as mães que tiveram uma cesariana avaliam menos positivamente o bebé e exibem menor envolvimento emocional positivo com ele (Bradley et al., 1983; Cranley et al., 1983; Cummins et al., 1988; Garel, Lelong & Caminsky, 1987; Hwang, 1987), assim como aleitam menos ao peito o bebé (Bradley et al., 1983; Cranley et al., 1983; Cummins et al., 1988; Tulman, 1986)."
As diferenças na interacção mãe/ bebé tendo por base o tipo de parto esbatem-se com o tempo, no entanto, há estudos que indicativos que que estas subsistem:


" num estudo sobre 17 mães com parto normal e 6 mães que foram sujeitas a cesariana,
observam que as mães que tinham tido uma cesariana providenciam menos estimulação táctil ao bebé, numa observação realizada em casa, 5 meses depois do parto"
"DiMatteo, Morton, Lepper, Damush, Carney,Pearson, e Kahn (1996) realizam uma extensa revisão da literatura que inclui 358 artigos e apresentam uma meta-análise sobre 74 estudos, publicados entre 1979 e 1993, os quais examinam as diferenças entre parto normal e parto por cesariana, em termos das repercussões numa série de 23 variáveis relativas à mãe e ao bebé.
Tendo em conta esses estudos, os autores concluem que o parto por cesariana implica um vasto conjunto de consequências adversas sobre a mãe e o bebé. Os resultados mais robustos sugerem que as mães que fizeram uma cesariana, sobretudo quando a cesariana não foi planeada, quando são comparadas com as mães que tiveram um parto normal: estão menos satisfeitas com a experiência de parto, quer no imediato quer até 12 meses depois do parto; têm menos probabilidade de vir a amamentar ao seio o bebé; expressam uma reacção inicial menos positiva para com o bebé, a qual se mantém 6 semanas depois do parto; demoram mais tempo a interagir pela primeira vez com o bebé; interagem menos com o bebé em casa, por exemplo, providenciam menos estimulação táctil, prestam menos cuidados, e têm menos brincadeiras íntimas com o bebé durante os seus primeiros 6 meses de vida.
"
 Os efeitos esquecidos da epidural:

"Muhlen, Pryke, e Wade (1986), por exemplo, estudam o efeito do tipo de parto (parto normal, estimulado, induzido, e por cesariana) e da anestesia epidural sobre o comportamento neo-natal do bebé. Uma amostra de 106 bebés é avaliada, através da Escala de Avaliação do Comportamento Neo-natal de Brazelton (Neonatal Behavioral Assessment Scale, NBAS), no 1.º, 5.º e 28.º dias de vida. As mães são todas primíparas, têm idades entre os 18 e os 44 anos e são predominantemente de classe média. Os resultados mostram que as maiores diferenças, observadas no comportamento neo-natal dos bebés, se devem à analgesia epidural e não ao tipo de parto. Os bebés das mães que receberam analgesia epidural de parto exibem aos 28 dias resultados significativamente
mais baixos nas seguintes escalas do NBAS: processos motores e resposta ao stress. A desorganização que observam no comportamento do bebé, na opinião dos referidos autores, em consequência da analgesia epidural, pode perturbar a relação com a mãe, o que deveria ser considerado quando a decisão de analgesia epidural é tomada. Consideram ainda necessário desenvolver drogas de baixa toxicidade e  técnicas para remover a dor que não recorram a medicação.
Estes resultados foram mais recentemente replicados por Sepkoski, Lester, Ostheimer, e Brazelton  (1992). Estes investigadores quiseram de igual forma estudar o efeito da analgesia epidural de parto sobre o comportamento neo-natal do bebé, durante o primeiro mês de vida. Nesse sentido, avaliam através da NBAS, administrada no 1.º, 3.º, 7.º e 28.º dias, 20 bebés que nasceram de um parto com anestesia epidural e 20 bebés cujas mães não foram medicadas durante o parto. Verificam que os bebés cujas mães tinham feito uma anestesia epidural exibem um pior desempenho na escala (e isso, sobretudo no respeitante à resposta de orientação e ao desenvolvimento motor) do que os bebés cujas mães não tinham sido sujeitas a intervenção anestésica."
 (*) Fonte: FIGUEIREDO, Bárbara (2002) Experiência de parto: Alguns factores e consequências associada
Análise Psicológica (2002), 2 (XX): 203-217
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