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Nascer em Portugal - Instituto de Ciências Sociais - 18 de Maio de 2010

Nascer em Portugal - ganhou-se muito. Mas o que se perdeu?
2010/05/19
Ana Esteves

No passado dia 18, o pediatra e professor Mário Cordeiro esteve no Instituo de Ciências Sociais, para uma palestra sobre a forma como se nasce hoje em Portugal. O IOL Mãe revela-lhe o essencial do que foi dito.
Nascer em Portugal - ganhou-se muito. Mas o que se perdeu?

Reduzimos o nascimento a um acto clínico e isso tem custos. Um nascimento é muito mais do que um parto. O parto faz parte do nascimento, mas não é o seu epicentro. O que está em causa, ou devia estar, é o nascimento. É dele que temos de falar. O nascimento converteu-se em parto na nossa sociedade e às vezes em formas sinistras de parto.

A grande maioria das pessoas que pensa na hipótese de ter um filho não sabe o que é o nascimento. Tal como a maioria dos profissionais que lidam com estas questões.

Do sonho de um filho, que vem desde os 18 meses, nasce o projecto de um filho. E finalmente, a realidade de um filho. O significado de um filho real é tão grande que nos ultrapassa. Depois de uma primeira emoção com a notícia da gravidez, e de umas semanas em que parece não se passar nada, entra-se numa escalada de ansiedade que passa pelo momento alto do parto.

Esse momento é de uma transcendência e grandiosidade imensas. Por isso devia ser um momento de intimidade, até de recolhimento. E foi sempre assim ao longo dos tempos, se fizermos uma análise antropológica. Todos os rituais respeitavam a intimidade necessária ao parto. E é necessária porque é a única maneira de haver, logo a seguir, um momento fundamental de contemplação.

Esse momento não existirá se o stress inibir as endorfinas naturais, se a intrusão for mais que muita... Hoje rouba-se, muitas vezes, a intimidade a este momento. E isso é mau. Sou a favor que os partos aconteçam em meio hospitalar, mas o momento é tão solene que se deve respeitar como tal.

Seriam precisos uma série de apoios para se fazer a triagem clara das mulheres que poderiam ter em segurança o bebé em casa. Não há risco zero e não se deve facilitar. Mas também é verdade que nos hospitais se correm os riscos das más práticas, que levam muitas vezes a resultados funestos.

As más práticas têm de acabar!
Não percebo por que razão a Ministra da saúde, ainda por cima uma pediatra, não deu ainda um murro na mesa para acabar com as práticas que vão contra o que é mais benéfico para a mulher e para o bebé. Os riscos aparecem como justificação para muitas práticas nefastas. Mas são outras, muitas vezes, as verdadeiras razões.
Quando se fala de taxas de mortalidade perinatal para justificar todos as intervenções no momento do parto, deve também mostrar-se o outro lado. Ou seja, todas as outras taxas de riscos acrescidos e de prejuízos reais devido a más práticas. E aqui penso que os académicos têm estado demasiado caladinhos, como se não fosse nada com eles. Parece que nada se passa, ninguém estuda estas questões.

A taxa de cessarianas é obscena
A taxa de cesarianas que temos, muito acima dos 20 por cento, é obscena. No meio privado chega-se a 70 ou 80 por cento de cesarianas. Isto tem riscos. Não é igual nascer de parto normal ou de cesariana. Há diferenças importantes para o bebé e para a mãe. Isto não é dito às mulheres, não se mostra todo o filme todo, o que considero uma má prática. As mulheres deviam ser informadas dos riscos reais de uma cesariana, de uma epidural, de uma episiotomia.
A taxa de cesarianas nos hospitais privados só tem uma razão e é financeira. O preço de uma cesariana é cinco vezes superior ao de um parto normal. Isto tem de ser assumido!
Devemos tomar decisões informadas e não baseadas em meias-verdades. Uma cesariana é uma intervenção cirúrgica. Ser o utente a pedi-la é inaceitável. Nenhum médico, mesmo no serviço privado, vai tirar o apêndice a alguém que chegue lá e diga que é isso que quer! Tem de haver critérios e têm de ser iguais em todos os hospitais, tal como acontece nas outras áreas da medicina.

Cesariana a pedido é má prática
Outra coisa que me choca é a cesariana on demand. As mulheres que marcam uma cesariana porque não querem sofrer estão a passar por cima de um processo que tem um papel muito importante. Para elas, a separação do bebé não se fez. E quando aos seis meses ele tem um surto de autonomia, é um sofrimento para elas. Porque o nascimento não existiu. Vejo mães agarradas aos seus bebés, que não conseguem mudá-los de quarto, que não os deixam fazer o seu percurso de autonomia.

O nascimento não é apenas chegar e tirar um bebé da barriga da mãe. É muito mais do que isso. E um bom começo é um bom começo, quem o rejeitaria, conhecendo o filme todo?

O que nos é roubado: intimidade e o momento de contemplação
É uma decisão pessoal, mas sou completamente intolerante em relação às visitas a seguir ao nascimento de um bebé. É horrível, é perversa a quantidade de gente de invade a intimidade da família. Toda a gente corre para o hospital, em romaria, pessoas que às vezes estão meses sem ver um amigo doente. É também um fenómeno a estudar. Parece que andamos todos ávidos de bebés. Parasitamos os filhos dos outros e roubamos-lhes momentos cruciais.

É precisamente o que fazem as enfermeiras que pegam no bebé acabado de nascer e o levam sob o pretexto de ter de ser aquecido. Agarram num bebé que os pais não tocaram e dizem «Estão a ver o vosso filho?» É uma coisa sádica. Se tirarmos um gatinho acabado de nascer a uma gata e o colocarmos aninhado junto a uma cadela, é a esta que ele vai apegar-se. E a gata vai rejeitá-lo.

Então porque fazemos isto aos bebés e às mães e pais? Um recém-nascido não corresponde a nenhuma idealização de um bebé. Mas se ele for colocado sobre a mãe assim que nasce, pele com pele, se esse tempo de contacto for respeitado, quando a mãe olhar finalmente para a cara dele, está num estado de êxtase e vai achá-lo o bebé mais lindo do mundo.
Se pelo contrário o vê de longe e o levam embora é um choque. «Aquilo era o meu bebé? Credo!Coitadinho!», vai pensar.

Só 15 por cento dos bebés precisam de reanimação após o nascimento. Todos os outros deviam ficar ao pé dos pais naqueles momentos únicos e tão importantes.

A dor faz parte do ritual de passagem
Cada dor tem o seu sentido e é muito relativa e subjectiva a forma como a sentimos. Há rituais de passagem e em alguns a dor está incluída. No parto, ela dá-nos a nítida consciência de que houve de facto uma separação entre a mãe e o bebé. Trata-se da separação de dois corpos, é um fenómeno brutal, do ponto de vista físico, mas também conceptual. É normal que doa.

O sofrimento que muitas mães sentem nos primeiros anos de vida dos filhos tem muito a ver com o facto de não terem passado por este ritual de passagem. Foi tudo tão leve, que nem percebemos, foi como se não tivesse acontecido nada.¿
Há velórios porque é preciso passar por esse ritual para fazermos o luto. Dói, mas é preciso. Queremos uma sociedade, uma vida sem dor, mas isso não existe, é postiço. Querer não sentir nada é perverso, tem consequências negativas.

Claro que quando digo isto, respondem-me muitas vezes que falo assim porque sou homem, chamam-me machista ou coisas piores. Mas também há mulheres a falar assim, felizmente.

Fonte: http://www.mae.iol.pt/artigo.php?id=1163859&div_id=3626

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1 comment:

  1. Gostei principalmente do que fala sobre a intimidade. É o momento mais íntimo das nossas vidas, não é para ser dividido com ninguém (odeio as enfermarias cheias de camas.)

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