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Procuro pais que queiram construir um projecto educativo comunitário

Não conheço, em Lisboa, nenhum projecto educativo comunitário. Sim, daqueles que existem por ai:
X nº de famílias junta-se, procuram um espaço (de preferência com fácil acesso de transportes e com jardim), pagam a renda e as despesas correntes desse espaço e constroem um projecto educativo que sirva as suas necessidades. 
Como? Ora, trabalhando para isso, dando o seu tempo e amor de forma colaborativa.
 

Melhor do que as creches e amas porque...

 - é  mais barato do que uma creche e, sem dúvida, mais barato do que uma ama (começo por estas por ser um facto importante para muita gente. Infelizmente, é o mais importante para gente demais);
-  as crianças não ficam isoladas, em casa, como acontece com as amas ao domicílio;
- as crianças não ficam aglutinadas em apartamentos, todo o dia, a palrar com crianças da mesma idade e sob a supervisão de apenas 1 (com sorte 2) adulto, como acontece com as amas profissionais que recebem até (ou é no mínimo?) 5 crianças;
- as crianças não ficam aglutinadas em espaços públicos artificiais, cobertos de linóleos e cores berrantes à mercê da bicharada, da tv...;
- as crianças não passam o dia inteiro entre pares - crianças da mesma idade;
..... (há mais mas estou com pressa LOL)

Como funciona um projecto educativo comunitário?

Como já disse acima, um conjunto da famílias junta-se, procura uma casa com jardim, paga as despesas de manutenção e abre a casa, todos os dias da semana, para aí permanecer em actividades pensadas e implementadas por pais e crianças para pais e crianças. Pais e filhos cozinham juntos, almoçam e lancham juntos e enquanto uns brincam (em brincadeiras livres ou orientadas) os outros podem trabalhar.

A gestão das actividades e as brincadeiras com as crianças, podem estar sempre a cargo dos mesmos adultos (para tal terão que ser remunerados) ou podem ser partilhadas entre pais (que, para tal, terão que dispor de tempo para o projecto).

O objectivo não é que que as crianças fiquem no projecto educativo, todo o dia, sem a presença dos seus pais (não é uma creche ou escola) mas que estejam em comunidade e com os seus pais mas, se tiver que ser, também se procura uma solução.

Para que idades?

Para todas as idades desde que os pais tenham vontade de construir em vez de se adaptarem ao que a rede "mainstream" nos oferece.

Este tipo de projecto pode ser  importante para mamãs em licença de maternidade (0 aos 2 anos e 9 meses que é o max que a lei permite, por enquanto) que ficam geralmente fechadas em casa.

Torna-se ainda mais útil para recém-mamãs com mais do que 1 filho pois podem gozar a licença de maternidade tendo os 2, ou 3, ou 5 filhos consigo sem ter que ficar isoladas num apartamento entre um bebé que dorme e mama e uma criança que se aborrece por não ter com quem brincar.

É também uma solução para as crianças em ensino doméstico/unschooling (+6) que podem assim contar com um espaço de aprendizagem comunitário, com crianças de todas as idades e vários adultos que partilham os seus saberes.

Imagino uma coisa pequena, max 10 famílias  e já estamos a falar de um projecto bem consolidado. para arrancar teriam que ser, no máximo, umas 5 famílias. 

Até agora, encontrei muita gente que adoraria contar com uma estrutura deste género mas que não está disponível para a construir.

Ninguém se quer lançar a fazer isto comigo?

Sinto uma imensa frustração por ver que as pessoas dizem necessitar condições de vida diferentes e que permitam uma vivência familiar mais confortável, mais comunitária mas não se atrevem a construir algo que responda a essas necessidades. Quantos de vocês não deseja para si e para as suas crianças:
- uma casa maior?
- uma casa com jardim?
- uma horta para os vegetais?
- uma casa quentinha no inverno e fresquinha no verão, 24 h por dia;
- uma casa perto de um jardim onde haja outras crianças?
- almoços e jantares saudáveis e feitos por outra pessoa?
- ir a uma reunião, ir trabalhar sem ter que se preocupar com quem fica o filho (ou filhos)?
- trabalhar no mesmo espaço físico que os filhos estando eles entretidos com outras crianças/pessoas?
- ter muitos brinquedos que sejam capazes de entreter os miúdos por muito tempo;
- escolher a melhor ama, a melhor creche, a melhor escola, os melhores professores.... 
..... há muito mais.. muito mais coisas que quase todos nós dizemos querer....

algumas famílias encontram soluções para tudo isto:

- compram uma casa maior e matam-se a trabalhar para a pagar. Agora cada um dos putos tem o seu quarto mas não tem pai e mãe porque estes tem que trabalhar dia e noite para os pagar;
- compram uma casa com jardim que, com sorte, é utilizado uma vez por semana;
- compram e mantém ar condicionado e aquecimento central que lhes mantém a casa quentinha no inverno e fresquinha no verão, 24 h por dia; - mandam construir (no jardim) uma horta para os vegetais mas só lá crescem ervas porque não há tempo para mais;
- compram uma casa perto de um jardim onde há parques infantis e esperam que os pais das outras crianças tenham tempo para as levar para lá. Talvez andem tão ou mais atarefados do que eles próprios. Ou talvez nem consigam decidir se ficam  no seu jardim ou neste outro jardim do bairro.... pena que não se pode comprar jardins já com crianças incorporadas. E das que não arrancam brinquedos nem empurram os nossos putos SFF;
- pagam uma empregada/ama que faz os almoços e jantares e comem, todos os dias em casa;
- pagam a ama ou babysitter que fica com os miúdos e cujas referências chegaram via tia da prima da vizinha do lado e confia-se que sim, vai correr tudo bem;
- com sorte, conseguem trabalhar no mesmo espaço físico que os filho, durante as sestas ou enfiando-os num parque a ver tv; 
- compram muitos brinquedos que nunca são cpazes de entreter os miúdos por tanto temo como o desejado porque o que entretém os miúdos são as pessoas que brincam com eles utilizando os brinquedos e não os objectos per si (chegará o dia em que os miúdos serão tão agarrados aos objectos como os seus pais mas isso são outras conversas);
- escolhem a melhor ama, a melhor creche, a melhor escola, os melhores professores.... e pagam, pagam, pagam o que só o outro, só o caro (preferencialmente com nome estrangeiro) pode fazer pelos seus filhos porque eles não são capazes ou não podem porque tem que trabalhar (o cúmulo é a educadora de infância que gana dinheiro à custa dos filos dos outros enquanto alguém ganha dinheiro à custa dos seus. Sim, é "à custa de ... mas sobre isso escrevo outro dia) 

Tudo soluções viáveis, tudo soluções dentro da norma, tudo soluções que nos trouxeram até o actual estado das coisas: O desastre da família nuclear, o isolamento, o individualismo, as crianças e jovens orientados pelos pares, a fugir a 7 pés de todos os adultos, "viciados" em tv e jogos, incompreensíveis (dizem os pais) e incompreendidos (dizem eles). 

Apesar de todas as evidências, preservaramos neste modelo falido, caduco e que nos está a pôr doentes. 

Criar um espaço conjunto que nos dê a casa, o jardim, as crianças, a alimentação, o conforto do fresco no verão, e calor no inverno, a companhia, a partilha dos cuidados e das aprendizagens? Não, isso dá muito trabalho! Trabalhar dia e noite para pagar todas as porcarias que referi antes é muito mais importante e, acima de tudo, estarei a trabalhar para mim, a minha casa, o meu jardim, a minha horta, o meu ar condicionado.... o meu isolamento, o isolamento dos meus....

E não me venham dizer que antigamente era pior. Para quem ainda não se apercebeu, existe um antigamente "mais antigo" do que o modelo social em que vivemos nos últimos 150 anos. E, nem todos os modelos sociais são iguais ao nosso. Existem outras formas de viver, é possível e desejável criar em comunidade. 
Parece simples não é? É fácil concordar que outro modelo é possível. É fácil concordar que podemos construir um projecto educativo em conjunto. Então porque é que não acontece? Porque é que ninguém quer arriscar?

Já me passaram várias hipóteses pela cabeça:
-  dizem que gostavam de ter, nos bairros, onde vivem espaços assim e assado mas é mentira;
- tem falta de auto-estima (mercê de infâncias de isolamento e restrições que nem eles próprios reconhecem terem provocado danos) e acreditam mesmo que não são capazes de empreender o que quer que seja e por isso inventam desculpas (inconscientes ou não): não vai funcionar, é difícil etc... a que eu gosto mais é "é caro" sim, porque as casas com jardins e os carros e os 1001 gadjets são grátis);
-tem preguiça e querem tudo feito por 3ªs. Como somos um país de preguiçosos, estamos todos à espera;
- gostam de se lamentar e do queixume. Se constroem as respostas já não se pode queixar;
- não se conhecem e não conhecem as suas reais necessidades e por isso continuam a tentar suprir o mal estar através do ter (comprar, comprar, comprar);
 .. (devem existir mais mas não me recordo)


Se calhar só não perguntei às pessoas certas?

eu sei que o pessoal tem que trabalhar, nestes casos, não se poderia pagar a alguém para estar no projecto educativo, com os miúdos a desenvolver actividades em vez de eles estarem sozinhos em casa com uma ama? Entre todos deve sair mais barato do que o somatório das amas e das casas com ar condicionado etc... que estão agora a pagar.

Também sei que as mães que estão em casa com os filhos não tem dinheiro para investir mas tem cabeça, braços e tempo para trabalhar, ou não? Não se consegue aproveitar esses recursos? Olhem, até podem receber o dinheiro das que trabalham todo  dia e toma conta do putos delas.

Digam-me lá a verdade, porque é que to não se faz? Porque é que existe em tantos outros países mas não em Portugal? 

Não me digam que é porque há pouca gente suficientemente altruísta para dispensar umas horas do seu dia a fazer algo mais que não seja olhar para o seu umbigo. Ainda dizem que o problema de Portugal são os políticos.





6 comments:

  1. Sim, é verdade "há pouca gente suficientemente altruísta para dispensar umas horas do seu dia a fazer algo mais que não seja olhar para o seu umbigo". Agora fiquei com pena de não morar na tua zona. Boa sorte!

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  2. É um projecto com o qual sempre sonhei e que gostaria que a minha famia fisesse parte. O unico senão: a nossa area geografica, somos do Porto. mas é um iniciativa fantástica!

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  3. Estás na zona errada! Também eu sou do Porto, tenho 3 filhos e uma casa com as condições que descreves e tentamos aproveita las o maximo que podemos.

    Espreita em www.ensinodomestico.blogspot.com

    Gostei do teu blog
    Bjinho

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  4. Gostaria muito que este milagre se concretizasse... moro na zona de Lisboa e é o que procuramos ( eu e o pai ), para a nossa filha de sete meses. Revejo-me no que escreves por instinto e pele e razão, mesmo não sabendo imediatamente que parte de mim poderia contribuir para torná-lo operacional.

    No entanto, é-me importante sublinhar a cautela que me acompanha através do conhecimento de dois projectos que começaram com idênticas premissas e que o tempo e o choque de personalidades entretanto reveladas fez completamente estoirar ( e, neste caso, partindo de principios tão comunitários é violentíssimo o contraste ) . Não é só a leveza dos começos é a manutenção integra do caminho que uma opção como esta torna ainda mais vital.

    Vou gostar muito que me ponhas ao corrente de qualquer movimento que aconteça nesta direcção.
    Obrigada.

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  5. obrigada pelo vosso apoio ao projecto e por lerem para além do meu descontentamento :)

    Eu sou da Maia (Porto) e já estive mais longe de voltar. Todo o meu ser me diz que o caminho é para norte e almejo pelo dia do regresso (ainda que seja possível que me fique a meia distância entre Lisboa e a Maia :)).

    No Porto existe um projecto do género do que eu almejo. Encontrei referência na plataforma ning de permacutura. Aqui fica o link: http://permaculturaportugal.ning.com/group/ensinosemidomestico?groupUrl=ensinosemidomestico&xg_source=msg_com_group&id=2722171%3AGroup%3A83789&page=3#comments

    Pode ser que as mamãs que estão perto possam visitar este projecto e aprender com estas famílias?

    Quanto a nós, em Lisboa, tem que ser possível construir algo comunitário. Eu pensava em 5 famílias no max (sendo que aqui na Graça/Anjos/Stª Ingrácia/Alfama) há duas mães com vontade e necessidade de agarrar nisto a sério e umas quantas que se poderão juntar esporadicamente se a ideia avançar.

    Dora, estás perto de nós? Escreves para o meu mail? catiamaciel@want.com.pt

    Estarei na Maia 27 a 29 e talvez também dia 30. Se estiver dia 30 gostava muito de ir à feira bio do Castelo da Maia. Podíamos fazer um encontro no Parque da Gruta?

    Ai que vontade tenho de ir dinamizar iniciativas destas para aí...

    beijinhos a todas.

    cm

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  6. Olá,
    alguém conseguiu começar um projecto deste género?
    Continuo com esperanças de o criar.
    Até já
    cm

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