A idade média da maternidade, em Portugal é de 30,6 anos.
Já a idade média da mulher ao nascimento do primeiro filho é de 28,9 anos.
Fonte: PORDATA
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Parece-te que, em Portugal, estão a nascer mais crianças?
Talvez estas a confirmar aquilo que, de facto, está a acontecer.
"Número médio de crianças por mulher aumentou ligeiramente - 2010"
"De acordo com os factos demográficos registados, em 2010 o número de nados vivos aumentou face ao ano anterior, o que resultou numa ligeira recuperação do número médio de crianças por mulher; a mortalidade geral apresentou o valor mais alto dos últimos cinco anos e a mortalidade infantil atingiu o valor mínimo registado; o número de casamentos continuou a diminuir, tendo a taxa de nupcialidade atingido o valor mais baixo de sempre; a divorcialidade manteve a tendência de crescimento."
Fonte: Instituto Nacional de Estatística
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"Número médio de crianças por mulher aumentou ligeiramente - 2010"
"De acordo com os factos demográficos registados, em 2010 o número de nados vivos aumentou face ao ano anterior, o que resultou numa ligeira recuperação do número médio de crianças por mulher; a mortalidade geral apresentou o valor mais alto dos últimos cinco anos e a mortalidade infantil atingiu o valor mínimo registado; o número de casamentos continuou a diminuir, tendo a taxa de nupcialidade atingido o valor mais baixo de sempre; a divorcialidade manteve a tendência de crescimento."
Fonte: Instituto Nacional de Estatística
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Afinal o que diz a OCDE sobre a primeira infância? Espantem-se!

Levada pela curiosidade, acabei por dedicar parte da minha noite à leitura dos estudos e estatísticas da OECD Family database.
O primeiro relatório que chamou a minha atenção foi o Doing Better for Children, nomeademente o capítulo 7, que é o as conclusões (é assim que faz quem pesquisa cheia de sono e entre mamadas) e o das recomendações aos Governos.
Transcrevo, em tradução livre, resumo e comento as questões que mais me chamaram a atenção. Deixamos as referências bibliográficas para outras núpcias (desta feita por preguiça e não por qualquer outra causa).
Começamos logo por ler que, "o bem estar das crianças está nas agendas políticas". A sério, quem diria? Será que se referem a todos os países da OCDE?
É feita uma análise da relação entre as medidas de política e o bem estar das crianças e é interessante verificar que para o binómio "educação/primeira infância (considerando-se aqui dos 0 aos 5), a correlação é negativa, a qualidade da vida em equipamento educacional tem uma correlação muito baixa sendo que o que é realmente determinante é a saúde e segurança, mais importante do que o rendimento disponível, na família.
Gostava muito de ver esta análise feita para as crianças dos 0 aos 3 anos e logo veríamos se a correlação relativa à qualidade da vida em equipamento passava de baixa a negativa.
A variável saúde e segurança vai perdendo preponderância à medida que a criança cresce, até que se dilui por completo na adolescência e juventude. Ao longo do percurso, ganham peso as variáveis "qualidade da vida em equipamento escolar" e, mais tarde, "bem estar material".
Pergunto-me que qualidade de vida em equipamento escolar terão as crianças que estão obrigadas a deslocações demoradas até à escola primária devido ao encerramento de centenas de estabelecimentos de ensino em todo o país?
De acordo com as recomendações da OCDE, os Governos deveriam concentrar as despesas no periodo que vai desde a concepção à entrada da escola primária por forma a garantir mais eficiência e equidade. Este investimento desde a concepção à idade escolar, tem efeitos nas despesas com crianças e jovens em risco dado que, pela prevenção, leva a uma diminuição destas situações. Desta forma, haveria mais recursos disponíveis para aplicar nas situações em que, apesar do investimento precoce generalizado, as situações de risco de verificam.
Os Governos devem, de acordo com a OCDE, garantir que investimentos em situações de risco na infância e juventude são complementares do investimento realizado na primeira-infância. Sabe quem trabalha em intervenção social em Portugal que as situações são sinalizadas quando existe risco e/ou perigo sem que tenha existido qualquer intervenção de carácter preventivo na primeira infância.
As intervenções na primeira infância devem ser em dinheiro e em serviços.
A OCDE recomenda que se faça:
- melhorar a qualidade de vida in-utero é fundamental, nomeadamente, através da redução de consumo de tabaco e melhoria da dieta das grávidas;
- o número de consultas pré-natal pode ser reduzido para a generalidade das grávidas e intensificado para as que apresentem algum tipo de "risco" físico, emocional e social. Por exemplo, é de suma importância trabalhar com as grávidas e casais no sentido de fornecer as informações necessárias para o desenvolvimento das competências parentais necessárias ao bem-estar na primeira infância (parace tão óbvio, não é?)
- Fazer as alterações políticas necessárias para que o apoio à amamentação seja efectivo. Fornecer às mães e à sociedade em geral informações sobre os benefícios da mesma. (por cá, as instituições de apoio dão às mães carenciadas latas de leite em pó em vez de apoiarem a amamentação. Quando se sabe que a amamentação é um meio para a criação de um vínculo forte entre mãe e filho, diminui a possibilidade de abandono e maus tratos, melhora a saúde do bebé e da lactante, é gratuita... enfim....)
- Garantir que existem as condições para que a a amamentação possa ser feita, em exclusivo, até aos 6 meses como recomenda a OMS: ajustes à licença parental, alterações na forma como as maternidades e hospitais lidam com a mesma, criar condições nos locais de trabalho;
- Programas para melhorar os serviços pós-natal, intensificando-o para as situações que apresentam maior risco (ou, em Portugal, criar este apoio porque não existe).
- desmedicalização do parto e aumento da utilização de enfermeiras e parteiras em vez de obstetras e pediatras o que leva à diminuição dos custos sem diminuir a qualidade dos cuidados pré-natais.
- gastos desnecessários com políticas de nascimento universais e que incitam a partos altamente medicalizados;
- estadias prolongadas na maternidade que não acrescentam nada ao bem-estar da criança;
- consultas pré-natal demasiado focadas no risco médico e sem qualquer orientação para o risco social;
- demasiados contactos pré-natal para grávidas de baixo risco, médico social;
- alocação de recursos a programas dirigidos aos jovens que já passaram a idade da escolaridade obrigatória dado que este investimento vai, quase totalmente, para famílias com mais recursos (pois claro, são os que conseguem lá chegar!).
Uma grande parte do relatório é dedicada às políticas relativa as famílias pobres que, sendo as que mais nos preocupam, não deverão ser as únicas visadas na promoção do bem-estar infantil
Apenas 3 países da OCDE construíram uma estratégia nacional para a infância (Irlanda - National Children’s Strategy. Our Children – Their Lives (Ireland, 2000); Nova Zelância - Agenda for Children (New Zealand Ministry of Social Development, 2002); Reino Unido - Children’s Plan. Building Brighter Futures (Department for Children, Schools and Families, 2007), sendo as suas orçamentações reduzidas e sua eficácia na contribuição para o bem estar das crianças, desconhecida. Ainda assim, "está na agenda" (lol).
Claro que ter uma estratégia nacional não é a única forma de actuação. Muitos países optam por criar metas e indicadores relativos a determinada área, neste caso o bem estar na infância, e a sua medição dar-nos-ia os avanços e recuos face à meta. Claro que, para tal, as metas e indicadores teriam que ser bem definidos, os dados bem recolhidos e as avaliações feitas com rigor e clareza, o que, pelos vistos, não acontece.
Outras formas de actuação passam pela legislação (transversal ou sectorial) e o aumento dos rendimentos das famílias. Curiosamente, estudos longitudinais mostram que o rendimento não é preponderante para o bem estar das crianças dado que factores como a idade dos pais e o seu nível de escolaridade interferem nesta relação que se pensava ser de causa-efeito. Claro que rendimento (ou a falta dele) é dado como determinante para o bem estar das crianças quando se trata de famílias pobres a par de todas as outras questões que emergem quando se trata de contextos de pobreza.
Porque é que, actualmente, parece haver um conflito entre ser mulher e ser mãe?
Segundo Elisabeth Badinter, e que na minha opinião é irrefutável, não existe um modelo perfeito de mãe mas sim escolhas parentais que se devem adaptar ao contexto e necessidades de cada mulher. Mas o que fazer quando as necessidades da mãe esbarram nas necessidades dos filhos? Qual o peso do social e do biológico na determinação dessas necessidades? Se a primazia da nossa vida em sociedade não estivesse no consumo - e no trabalho que permite auferir o rendimento que dá acesso aos bens de consumo - as necessidades básicas do ser humano seriam as mesmas? As necessidades de um recém nascido e de uma puérpera seriam as mesmas?
Outra verdade irrefutável no seu discurso é o facto de ser necessário ter em conta a diversidade inerente ao conceito de feminino. Ser mulher não significa ser mãe, nem ser um determinado tipo de mãe.
Depois, temos as questões controversas e quanto mais exploro as posições da autora sobre a maternidade, mais considero que estas só fazem sentido no quadro da dicotomia consumo/trabalho. De notar também que as escolhas e práticas parentais vão muito para além da saída, ou não, da mulher de casa para trabalhar e essa diversidade está ausente do discurso da investigadora.
Diz-nos ainda que a licença de maternidade pode ser um presente envenenado dado que assistimos ao Estado a impor um ideal de mãe. Este ideal de mãe socialmente imposto, pode ser responsável pelo decréscimo da natalidade em muitos países ocidentais (nos quais a autora inclui Portugal) dado que as mulheres que queiram ser profissionalmente bem sucedidas tentem a não desejar ter filhos. A autora fala na necessidade de apoiar as mães que trabalham e isso não passa por alargar as licenças parentais mas, infelizmente, não nos indica como esta ajuda se poderia consubstanciar. Afirma também que as mulheres que optam por tirar a licença parental alargada, não encontram os seus postos de trabalho quando esta termina e ficam, devido ao desemprego e falta de independência financeira, alienadas em casamentos que, muitas vezes, já não são satisfatórios.
Como justificação para o facto de a taxa de natalidade em França não ser tão reduzida como noutros países europeus, a investigadora aponta o facto de na sociedade francesa as mulheres preferirem suprir primeiro as necessidades dos maridos e só depois as dos filhos o que significa que estas não abdicam do seu papel de esposa que contribui para o orçamento familiar mesmo tendo filhos - e não são julgadas por isso - e por isso não necessitam de se privar de os ter.
As posições da filosofa são controversas por exemplo, quando afirma que os movimentos ecologistas são machistas e estão, em nome do ambiente,a empurrar a mulher à reclusão do lar. Tenho que concordar que um Governo que visa taxar as fraldas descartáveis por estas serem muito poluentes em vez de dar icentivos para que se criem alternativas igualmente descartáveis mas biodegradáveis, é um Governo que, como diz a autora, se preocupa mais com o ambiente do que com as mulheres mas também poderá ser, digo eu, um Governo que vê em todo o lado oportunidades para arrecadar dividentos de impostos. Mais difícil de concordar é com a crítica da autora às mulheres que optam por não tomar a pílula contraceptiva, por ter partos sem epidural e/ou em casa por, diz-nos, estarem aterrorizadas com tudo o que é articifical.
Fala-nos ainda da necessidade feminina de ajustar contas com as suas mães e no papel deste "ajuste de contas" na saída das mulheres para o trabalho "não vou ficar sacrificar a minha vida e ficar em casa como a minha mãe" - diziam as mães nos últimos 30 anos - versus o actual "primeiro o meu filho, não vou trabalhar e relega-lo para segundo plano como a minha mãe".
Uma outra opinião controversa é a de que, com as actuais directivas sobre o aleitamento materno, os pais se tornam meros espectadores que deixaram de ter que se preocupar em dar o beberão aos filhos. Mas, pergunto eu, a participação activa nas tarefas domésticas, com ou sem filhos, passa apenas por dar um biberão?
A supressão das desigualdades de género não passam por decidir se é a mãe que amamenta a cria ou o pai que lhe dá o biberão. Fazer a mãe ir trabalhar uns dias depois de dar à luz ou ter uma sociedade que se organizou de forma a que tanto mulheres como homens se sentem sozinhos e infelizes em casa com os filhos - e por isso preferem ir trabalhar - também não é grande garante de igualdade. Da mesma forma que ser mulher não deve ser sinónimo de ser mãe, ser humano/a não deve ser sinónimo de ser trabalhador/a.
Finalmente,esta obra - e as posições consentâneas com a mesma - prima pela ausência de referências às necessidades dos recém nascidos e das crianças e parece fazer uma dissociação entre estes e o mundo dos adultos como se nenhum de nós nunca tivesse sido bebé e criança.
Outra verdade irrefutável no seu discurso é o facto de ser necessário ter em conta a diversidade inerente ao conceito de feminino. Ser mulher não significa ser mãe, nem ser um determinado tipo de mãe.
Depois, temos as questões controversas e quanto mais exploro as posições da autora sobre a maternidade, mais considero que estas só fazem sentido no quadro da dicotomia consumo/trabalho. De notar também que as escolhas e práticas parentais vão muito para além da saída, ou não, da mulher de casa para trabalhar e essa diversidade está ausente do discurso da investigadora.
Diz-nos E. Badinter que, a OMS e a UNICEF decretaram a amamentação exclusiva e em livre demanda até aos seis meses e a amamentação até, no mínimo, aos dois anos por terem cedido às pressões de uma América católica e conservadora que obriga, para poder cumprir com as recomendações em causa, a mulher a ficar disponível para os seus filhos 24 horas por dia sob risco de não ser considerada uma boa mãe.
Diz-nos ainda que a licença de maternidade pode ser um presente envenenado dado que assistimos ao Estado a impor um ideal de mãe. Este ideal de mãe socialmente imposto, pode ser responsável pelo decréscimo da natalidade em muitos países ocidentais (nos quais a autora inclui Portugal) dado que as mulheres que queiram ser profissionalmente bem sucedidas tentem a não desejar ter filhos. A autora fala na necessidade de apoiar as mães que trabalham e isso não passa por alargar as licenças parentais mas, infelizmente, não nos indica como esta ajuda se poderia consubstanciar. Afirma também que as mulheres que optam por tirar a licença parental alargada, não encontram os seus postos de trabalho quando esta termina e ficam, devido ao desemprego e falta de independência financeira, alienadas em casamentos que, muitas vezes, já não são satisfatórios.
Como justificação para o facto de a taxa de natalidade em França não ser tão reduzida como noutros países europeus, a investigadora aponta o facto de na sociedade francesa as mulheres preferirem suprir primeiro as necessidades dos maridos e só depois as dos filhos o que significa que estas não abdicam do seu papel de esposa que contribui para o orçamento familiar mesmo tendo filhos - e não são julgadas por isso - e por isso não necessitam de se privar de os ter.
As posições da filosofa são controversas por exemplo, quando afirma que os movimentos ecologistas são machistas e estão, em nome do ambiente,a empurrar a mulher à reclusão do lar. Tenho que concordar que um Governo que visa taxar as fraldas descartáveis por estas serem muito poluentes em vez de dar icentivos para que se criem alternativas igualmente descartáveis mas biodegradáveis, é um Governo que, como diz a autora, se preocupa mais com o ambiente do que com as mulheres mas também poderá ser, digo eu, um Governo que vê em todo o lado oportunidades para arrecadar dividentos de impostos. Mais difícil de concordar é com a crítica da autora às mulheres que optam por não tomar a pílula contraceptiva, por ter partos sem epidural e/ou em casa por, diz-nos, estarem aterrorizadas com tudo o que é articifical.
Fala-nos ainda da necessidade feminina de ajustar contas com as suas mães e no papel deste "ajuste de contas" na saída das mulheres para o trabalho "não vou ficar sacrificar a minha vida e ficar em casa como a minha mãe" - diziam as mães nos últimos 30 anos - versus o actual "primeiro o meu filho, não vou trabalhar e relega-lo para segundo plano como a minha mãe".
Uma outra opinião controversa é a de que, com as actuais directivas sobre o aleitamento materno, os pais se tornam meros espectadores que deixaram de ter que se preocupar em dar o beberão aos filhos. Mas, pergunto eu, a participação activa nas tarefas domésticas, com ou sem filhos, passa apenas por dar um biberão?
A supressão das desigualdades de género não passam por decidir se é a mãe que amamenta a cria ou o pai que lhe dá o biberão. Fazer a mãe ir trabalhar uns dias depois de dar à luz ou ter uma sociedade que se organizou de forma a que tanto mulheres como homens se sentem sozinhos e infelizes em casa com os filhos - e por isso preferem ir trabalhar - também não é grande garante de igualdade. Da mesma forma que ser mulher não deve ser sinónimo de ser mãe, ser humano/a não deve ser sinónimo de ser trabalhador/a.
Finalmente,esta obra - e as posições consentâneas com a mesma - prima pela ausência de referências às necessidades dos recém nascidos e das crianças e parece fazer uma dissociação entre estes e o mundo dos adultos como se nenhum de nós nunca tivesse sido bebé e criança.
O Mito da super mãe: naturalismo, conservadorismo...? Parte II (ou a real importância de uma definição quantificável de mãe)
Poderia opinar sobre o livro escrito pela filósofa e feminista francesa Elisabeth Badinter, mas ainda não tive oportunidade de o ler e, neste momento, estou mais intrigada com o debate nacional, em torno do mesmo, que parece ter ignorado uma das chaves que a autora fornece para a compreensão deste fenómeno, "a escolha".
O título, "Regresso do mito da super mãe" encerra em si um conjunto de contradições que são, na minha opinião, o espelho da importância atribuída na nossa sociedade às mulheres, às mães e às crianças.
Do (não) direito à escolha:
Parece-me interessante que as escolhas individuais em relação à maternidade sejam alvo de crítica pública e que estas críticas venham de mulheres que se dizem feministas e emancipadas. Ser feminista não implica ser masculina e, na minha humilde opinião, a tecnicização da gravidez, parto e cuidados aos bebés (incluindo aleitamento/alimentação) corresponde à masculinização do universo feminino. Se verificarmos atentamente, os movimentos feministas são mais ou menos conservadores, mais ou menos emancipados - dependendo do contexto em que se inserem - e por isso dissociar feminismo e maternidade parece-me ser um "erro grosseiro" só justificável numa sociedade que faz a apologia do sucesso mas nunca o associa à maternidade.
O título, "Regresso do mito da super mãe" encerra em si um conjunto de contradições que são, na minha opinião, o espelho da importância atribuída na nossa sociedade às mulheres, às mães e às crianças.
Do (não) direito à escolha:
Parece-me interessante que as escolhas individuais em relação à maternidade sejam alvo de crítica pública e que estas críticas venham de mulheres que se dizem feministas e emancipadas. Ser feminista não implica ser masculina e, na minha humilde opinião, a tecnicização da gravidez, parto e cuidados aos bebés (incluindo aleitamento/alimentação) corresponde à masculinização do universo feminino. Se verificarmos atentamente, os movimentos feministas são mais ou menos conservadores, mais ou menos emancipados - dependendo do contexto em que se inserem - e por isso dissociar feminismo e maternidade parece-me ser um "erro grosseiro" só justificável numa sociedade que faz a apologia do sucesso mas nunca o associa à maternidade.
Da mãe presente e disponível:
É interessante verificar que se apelidem determinadas escolhas de maternidade de "presente" e “disponível” sem se problematizar o facto de estas poderem ser o antónimo de "maternidade ausente" e “mãe indisponível”. Também é interessante que nesta equação entrem apenas "mães presentes" que são donas de casa conservadoras e mães trabalhadoras/ emancipadas quando a maioria das mães se situa num cinzento intermédio ainda por definir. O que dizer das mães que estão em casa sendo ausentes e indisponíveis e das que "trabalham fora" sendo presentes e disponíveis? O que as define, as suas práticas e representações ou o local onde trabalham (ou a remuneração associada a esse trabalho)?
Da medida de felicidade:
Afirmar que o importante é a "qualidade" e não a "quantidade" de tempo que se passa com os filhos e que os filhos de mães trabalhadoras são mais felizes, tendo por base uma amostra constituída por mães isoladas na sua maternidade e nas suas vidas, descuradas por uma sociedade que não atribui valor nenhum ao trabalho doméstico e muito menos à maternidade traz à superfície a falácia da extrapolação em ciências sociais.
Quais seriam os resultados se a amostra fosse constituída por famílias cujas mães escolheram, de forma consciente e informada, alicerçada numa rede de suporte e em princípios bem estruturados, ser as principais cuidadoras dos seus filhos (não querendo isto dizer que deixou de ter uma existência fora do seio familiar)?
Do mito da super mãe:
Amamentar e estar presente para os filhos pode ser mesmo entendido como uma tirania para uma mãe que trabalha a tempo inteiro, tem 1001 responsabilidades dentro e fora do seio familiar. Ser mãe torna-se impossível quando se tem que ser também super mulher, super competente, super inteligente, super bonita, super sensual, super organizada, super divertida, super moderna… É ainda mais impossível quando a mulher tem que desempenhar todos estes "super-papeis" em total isolamento (procuram-se super pais, super avós...) e sem o reconhecimento social que é atribuído a todas as outras actividades que possa desempenhar. É sabido que o reconhecimento da importância do papel da mãe constitui uma ameaça à vigente dominação masculina e não quero com isto dizer dominação dos Homens porque o masculino e o menino estão muito para além dos sexos. Será por isso que a figura da “super mãe” nem na mitologia existe? Veja-se a histórica tentativa de acabar com a adoração das deusas-mãe.
Do regresso sem ponto de partida:
Diz-se que a "maternidade presente" é um "regresso ao naturalismo" qual movimento de "regresso ao verde", ao rural idealizado? De que estamos a falar concretamente, um regresso ao quê? Regresso à submissão feminina vivenciada nos últimos séculos? Onde se situa o ponto a que os "naturalistas" querem regressar?·
Sem atentar à contradição com o anteriormente enunciado, as escolhas parentais ditas presentes, são também vistas como um “retrocesso ideológico” fruto da escalada do conservadorismo típico dos tempos de crise - qual movimento patriótico, racista, xenófobo - o que demonstra um absoluto desconhecimento do perfil destas mães e famílias “presentes e disponíveis”.
Sem atentar à contradição com o anteriormente enunciado, as escolhas parentais ditas presentes, são também vistas como um “retrocesso ideológico” fruto da escalada do conservadorismo típico dos tempos de crise - qual movimento patriótico, racista, xenófobo - o que demonstra um absoluto desconhecimento do perfil destas mães e famílias “presentes e disponíveis”.
Da motivação para a escolha das práticas parentais:
Não se fazem mães sem filhos e estes parecem estar sempre ausentes das discussões - mais ou menos ideológicas - em torno da maternidade/ parentalidade. Afinal, parto natural, a amamentação exclusiva e prolongada, o babywearing, a co-sleeping, a comunicação não violenta, a alimentação bio, a comunicação eliminação ... pretendem ir ao encontro das necessidades dos bebés, do ser humano enquanto espécie ou foram práticas inventadas para nos ajudarem a construir mais uma definição quantificável de mãe?
Dos pais e mães portugueses(as):
Quem são as mães e pais cujas escolhas geraram a discussão? Afinal, também falam português e vivem em Portugal? Quais as suas práticas, crenças, expectativas e representações? O que os motiva? Em que princípios se baseiam? Comunicam entre si? Há outras práticas, para além das parentais, que os unem?
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